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Pontos de situação e interrogação

Março 31, 2025 . 17:14
Com a aproximação das eleições legislativas, os partidos intensificarão discursos e promessas

Para já, continuam, em larga medida, desfasados daquilo que verdadeiramente inquieta os portugueses. Os dados do Eurobarómetro são claros: as maiores preocupações continuam a ser o custo de vida, a inflação, os custos da habitação e o acesso à saúde.

Em Portugal, estes temas surgem com maior intensidade do que na média europeia — e tudo indica que continuarão a marcar o quotidiano dos cidadãos. Perante um governo de gestão e uma campanha em marcha, o que esperam os portugueses? Mais respostas e menos retórica. No entanto, até agora, grande parte do discurso político permanece ancorado nas qualidades morais dos líderes e na responsabilização pela crise — como se tudo estivesse a correr bem. Não está e não estava. Basta olhar para o estado da saúde pública, para a instabilidade no SNS, a degradação da administração interna e o impacto negativo das medidas recentes no sector da habitação.

A remodelação governativa que antecedeu a dissolução da Assembleia ignorou o essencial: avaliar a qualidade da governação e a sua capacidade de resposta. Também veremos, entretanto, como age este governo de gestão, sendo certo que não pode ou não deve tomar decisões estruturantes. É fundamental que se aguarde pela clarificação eleitoral.

Do lado dos empresários, a instabilidade trava investimentos e mina a confiança — esse motor invisível da economia. A manutenção do rating por parte da agência Fitch revela solidez, mas não afasta o risco. Confiar na herança orçamental não basta. Precisamos de propostas sobre como criar valor, aumentar salários e investir com inteligência e critério. Apesar da insistência de jornalistas e comentadores, o debate político não pode ficar refém da dicotomia entre estabilidade e governabilidade. Os programas eleitorais devem enfrentar os temas centrais: habitação, saúde, mobilidade, coesão, salários, envelhecimento.

E não apenas prometer tranquilidade institucional. A escolha dos eleitores não deve ser reduzida a uma falsa tranquilidade, mas sim confrontada com soluções concretas para os problemas reais do país.
Lá fora, a Europa mexe. A Alemanha prepara um pacote de 500 mil milhões para infraestruturas e defesa, com impacto direto na economia europeia. Portugal pode beneficiar, se estiver preparado para se posicionar, negociar e aproveitar esse novo impulso. Este é o ponto de situação. Importa recordar que a confiança nas instituições se constrói com verdade e transparência. Provavelmente, também com disponibilidade para a negociação e o consenso. Esse será o verdadeiro teste depois de 18 de Maio.

Se Luís Montenegro vencer, como lidará com a Comissão Parlamentar de Inquérito que rejeitou antes das eleições? Da minha parte, já estou mais do que esclarecido. Já percebi bem o que se passou e não preciso de ver a sua família ser sujeita a inquéritos. Mas as questões de ética e transparência vão continuar mesmo sendo legitimado novamente pelos portugueses. Tudo isto, porque a sua empresa continua a existir, continua em actividade, enquanto é líder do governo, e isso era claramente evitável.

E Pedro Nuno Santos? Conseguirá recentrar o PS nas verdadeiras preocupações dos portugueses? E os portugueses estão disponíveis para ouvir (releve-se a última sondagem com taxa de resposta de 15% e 39% de indecisos)? Ou pretendem apenas, incomodados que estão, ultrapassar este obstáculo e decidir com pragmatismo?

A verdade é que já todos percebemos como chegámos aqui. Não sabemos é como vamos sair disto. Como a inspiração parece ser diminuta, acompanhemos a realidade e tentemos fazer a nossa parte, exigindo respostas e ajudando a construir o melhor cenário pós-eleitoral possível.

Março 31, 2025 . 17:14

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