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Pacheco Pereira cria comissão científica para Centro Interpretativo do Estado Novo
Pacheco Pereira assumiu hoje, através da Associação Cultural Ephemera, a liderança da comissão científica que vai coordenar o Centro Interpretativo do Estado Novo (CIEN) em Santa Comba Dão, apelando ao envio de todo o tipo de documentos.
Maria Inácia Rezola, Luís Reis Torgal, Irene Flunster Pimentel, Luísa Tiago Oliveira, Rui Feijó e Marçal Grilo são alguns dos nomes que fazem parte da comissão científica, liderada por José Pacheco Pereira, enquanto presidente da Associação Cultural Ephemera, que fundou.
O compromisso foi hoje formalizado, com a assinatura de um protocolo de cooperação para a concretização do CIEN 1926 – 1974 Regime e Resistência, entre o Município de Santa Comba Dão, no distrito de Viseu, e a Ephemera.
No acordo ficou definido que a Ephemera assume a autonomia, direção e coordenação científica do projeto de criação e funcionamento do Centro.
Durante a sessão, e mais tarde aos jornalistas, Pacheco Pereira admitiu que a comissão científica “ainda não está fechada, há muitos voluntários da Ephemera a trabalhar, historiadores com obra firmada” neste projeto.
“Mas há mais, ainda não está fechada e, depois de hoje, espero que haja mais gente que se disponibilize. Mal esteja fechada divulgaremos todos os nomes, mas serão pessoas com sólidos pergaminhos”, assegurou.
Pacheco Pereira aproveitou a cerimónia e a visita à Escola Cantina Salazar, espaço onde ficará o CIEN, para apelar aos cidadãos para enviarem, através da Ephemera, “todo o tipo de documentos”, papéis, panfletos, jornais, fotografias, manuscritos, objetos, “tudo é válido”.
“Salvamos tudo sem tabus, porque primeiro temos de guardar. É o primeiro passo. Lemos, estudamos e analisamos para saber a importância desse documento ou objeto. O que for, é preciso é guardar”, sustentou.
Pacheco Pereira acrescentou que a Ephemera tem no arquivo “muito material” que agora vai ser alvo de análise para ver se fica depositado no CIEN, mas, para já, hoje “chegou um carro cheio de livros” para a biblioteca que ali vai nascer.
A biblioteca é o primeiro passo do protocolo assinado hoje para a concretização do CIEN. A escola cantina, sede do CIEN, está aberta ao público, até junho, segundo o presidente da Câmara de Santa Comba Dão, Leonel Gouveia, deverá abrir a biblioteca, e “depois vai-se avançando nos trabalhos para criar o centro” interpretativo.
Com “perfeita consciência do quão armadilhado está o terreno” da criação do CIEN, Pacheco Pereira admitiu que foi aconselhado a não se meter nisso, mas isso não o travou a envolver-se num projeto que “já várias vezes falhou” e que parece ter “sobre si uma ‘maldição’”.
Isto porque está sediado “numa escola única mandada fazer por Salazar para a sua terra e família, com uma traça bem diferente das outras escolas” e, no Vimieiro (concelho de Santa Comba Dão) existe “um rasto da sua personagem está em vários sítios”, como edifícios, ruas ou comércio.
“Admitimos que ainda pode ter sobre si o fantasma do saudosismo de Salazar. Nada temos a ver com esse fantasma e muito menos temos saudades da ditadura […] Mas a pretexto de um fantasma não podemos permitir outro, o de tornar a história do Estado Novo também num fantasma. Se uma maldição se mantiver também sobre o conhecimento histórico, fazemos mais mal à democracia do que o fantasma de Salazar”, defendeu.